Mosaico na Mídia

Cresce o risco populista

by Fernando Dantas / Broadcast
Jun 24, 2013

O economista político Alexandre Marinis, sócio da Consultoria Mosaico, está bastante preocupado. “Estamos num momento extremamente perigoso do ponto de vista econômico, social e político”, ele diz.

 

O anúncio do cancelamento do reajuste dos pedágios paulistas pelo governador Geraldo Alckmin é preocupante. O governador diz que a medida não é “populista”, e que faz parte de uma estratégia de ação de dois anos e meio, mas isto parece coincidência demais para ser crível. E, seja qual for o plano de longo prazo, não reajustar tarifas pela inflação contribui para limitar a capacidade de investimento do Estado.

A onda de manifestações no País colocou o poder político em xeque. Diante da chuva de demandas e do aumento da tensão social, a reação das autoridades tanto pode ser a de tentar aplacar a ira popular com remendos populistas, à la Argentina, quanto a de fazer uma autocrítica mais profunda do funcionamento dos governos e do s partidos no Brasil.

Nesse segundo caso, os governantes e o sistema político em geral resistiriam ao tranco de não atender a todas as reivindicações e de não endeusar a voz das ruas, ao mesmo tempo em que trabalhariam de forma mais séria para obter melhoras reais na gestão da coisa pública que a médio e longo prazo pacificariam os ânimos sociais.

Os sinais até agora quanto àquele dilema, como o recuo no aumento das passagens dos ônibus em diversas cidades, e o anúncio de Alckmin sobre o pedágio, não são animadores. A combinação de piora do cenário internacional para a economia brasileira, virada populista na política pública puxada pelas ruas e trepidações inevitáveis de campanha eleitoral não augura bem para 2014.

O economista político Alexandre Marinis, sócio da Consultoria Mosaico, está bastante preocupado. “Estamos num momento extremamente perigoso do ponto de vista econômico, social e político”, ele diz.

Marinis nota que não é apenas em relação ao governo e à equipe econômica que se pode dizer que a margem de manobra diminuiu. Na verdade, isto é uma verdade para todas as lideranças econômica, políticas e sociais. O jogo ficou mais difícil e o custo dos erros aumentou.

Uma das principais preocupações do economista, com especialização em temas políticos, é o enfraquecimento institucional. Ele dá um exemplo, à primeira vista, surpreendente. Como cidadão, gostaria muito de ver os responsáveis pelo Mensalão exemplarmente punidos. Mas, pergunta-se Marinis, e se as novas apelações no Supremo foram tecnicamente corretas, e a suprema corte achar que deve livrar alguns réus da condenação em regime fechado. Será que há condições de fazer isto agora, dada a temperatura nas ruas?

O economista observa que, comparado com os demais Brics (Rússia, China e Índia), o Brasil é o membro do grupo que provavelmente tem as melhores instituições. Este é um ativo valioso, ainda mais num momento em que o cenário internacional piora para países emergentes com déficit em conta corrente e muito dependentes de commodities, como o Brasil.

O resultado das manifestações, porém, na sua visão, pode ser o de enfraquecer as instituições nas mais diversas esferas – Executivo, Legislativo, Judiciário, partidos, lideranças sociais, etc. A razão para isso é que o temor das ruas poderia levar os protagonistas da cena política e econômica a aceitarem uma pauta que emana de quem grita mais forte, e não do processo com pesos e contrapesos pelo qual normalmente as demandas da sociedade tramitam numa democracia.

Ele acrescenta que a falta de lideranças claras e a dispersão das bandeiras torna muito mais difícil uma negociação mais racional da pauta dos manifestantes com as autoridades constituídas.

Marinis acha que os meios de comunicação perderam a mão na narrativa que vêm fazendo dos protestos. Depois de oscilar entre condenar a “baderna”e aplaudir o despertar político dos jovens nas ruas, os principais veículos impressos e estações de TV acabaram tomando o partido dos manifestantes. E, ao fazerem-no, endossaram – mesmo que não explicitamente – a ideia de que as forças da ordem, como a Polícia Militar, são um instrumento de repressão à vontade popular.

O analista político nota que, em qualquer manifestação, há sempre uma minoria de pessoas violentas, que vai de simples saqueadores a bandos de jovens intolerantes e dispostos à briga. “Esses grupos sempre vão tentar desafiar a polícia”, ele diz. Se esta, por sua vez, tiver as mãos totalmente atadas pelos governantes em reação às críticas contra o excesso de truculência (que ele diz de fato existir, e que deve ser coibido), pequenos grupos de provocadores podem causar grandes conflitos, com consequências imprevisíveis.

A visão de Marinis, mesmo que esteja longe de consensual entre os especialistas em questões políticas e sociais, merece ser levada em conta pelas autoridades econômicas e políticas.

É possível fazer uma leitura um pouco mais otimista, em que a reação populista na primeira hora é até sensata no sentido de esfriar os ânimos. E de que poderia ser seguida por uma estratégia mais consistente de melhorar o sistema político e a gestão pública no País, como forma de atender racionalmente, e na medida do possível, as demandas da população.

De qualquer forma, se o rescaldo da agitação popular for positivo para o desenvolvimento do Brasil, isto terá acontecido porque as autoridades e os políticos preocuparam-se em evitar o cenário que preocupa Marinis. Nenhuma cautela será demasiada neste momento.

Este artigo foi publicado originalmente na AE-News/Broadcast

 

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